Estamos num momento histórico: neste ano e no próximo, estamos comemorando os 150 anos de nascimento e 100 anos de morte, respectivamente, do compositor austríaco Gustav Mahler (1860 - 1911). Isto já é de conhecimento da todos, afinal, estamos sendo bombardeados por artigos em revistas diversas, publicações de livros, cursos sobre sua obra, enfim, um universo inteiro com explicações sobre sua vida e obra. Mais do que isso, teremos a oportunidade de apreciar ao vivo todas as suas sinfonias e os mais importantes ciclos de canções, pela orquestra, que com razão, é considerada por muitos a melhor do país: a OSESP.
Mas antes de entrar em detalhes do meu Porque Mahler, gostaria de compartilhar com vocês um pouco da minha relação com a obra deste genial compositor.
Medo. Os primeiros comentários que eu ouvi sobre a obra deste compositor me deixaram com medo. Me assustaram, confesso, palavras do tipo “mas suas obras duram uma hora e meia”, “seus temas são muito grandes, não dá para colocar tudo na memória e depois relacionar”, “ele coloca dois tons ao mesmo tempo nas peças”. Sempre me perguntava – Será que estou preparado para isso? Vou conseguir dar conta de entender seus temas? - e mais ainda – vou conseguir de ouvido perceber que tem dois tons ao mesmo tempo? Será que isso soa muito áspero? - Era incrível o pavor que eu tinha para dar o play em alguma gravação de sua obra.
Um dia porém, numa aula de uma matéria incrível chamada estética, quando estava no terceiro ano da faculdade de composição musical, meu professor simplesmente colocou um CD no rádio, e falou com a maior naturalidade que iriamos escutar o primeiro movimento, inteiro, da Terceira Sinfonia do Mahler. E, muito incrível isto, completou dizendo: “- é para a gente perder o medo”. Eu não falei nada, óbvio, mas eu estava frente a frente com o monstro (não o professor, estou falando da sinfonia), prestes a me engolir. Mas eu tive de encarar, afinal, não havia escapatória.
Foi assim meu primeiro contato, realmente, com o compositor. Aquelas oito trompas fazendo a abertura do tema me deixaram muito impressionado. E o professor foi relacionando os eventos ao longo da gravação de uma maneira que não houve como não entender o que se passava ali. Eu comecei a gostar de Mahler naquele momento, assim na marra mesmo. Caiu por terra tudo aquilo que se falava do compositor: a nossa percepção de tempo é muito diferente quando o escutamos, cinquenta minutos nos parecem cinco, é possível sim entender seus temas (apesar de muitas vezes os temas de Mahler não serem muito convencionais) e mais do que entender se tem dois tons lá dentro ou se ele não está usando tom algum, é entender como acontecem as relações de seus materiais.
Parecia que aquela semana foi planejada com uma única finalidade: “esta semana nós vamos tirar o medo do Ronaldo”. Deve ter havido alguma reunião secreta na sala dos professores pois, dois dias depois, na aula de análise, o professor colocou um trecho inteiro da Quarta Sinfonia. A esta altura eu já havia me dado conta de como fui bobo ao dar ouvido aqueles comentários tolos. Em uma semana eu perdi o medo que tinha e comecei a correr atrás de todo material que conseguia sobre o compositor.
O que mais me marcou, entretanto, não aconteceu naquela semana, mas sim alguns meses depois, no início do ano de 2008: a OSESP iria abrir sua temporada com a Sinfonia nº2 (Ressurreição). A primeira obra do compositor que ouvi ao vivo foi simplesmente a Ressurreição. Fui assistir conhecendo pouco a obra, mas o impacto que me causou foi tamanho, que eu não a consigo tirar da minha cabeça até hoje (obviamente, esta obra se tornou a minha sinfonia preferida do compositor). E aquele ano foi muito proveitoso, pois assisti também a Quinta Sinfonia com a Orquestra do Teatro Municipal de São Paulo, a Primeira, com a Sinfônica Brasileira, regida pelo convidado Kurt Masur, e também As Canções da Terra, com a Filarmônica de São Bernardo.
E assim aconteceu. Não há como não se apaixonar por cada um destes mundos, pois cada obra sua é um mundo diferente, e um mundo belíssimo (digo belíssimo em suas relações, pois nem sempre o que nos é apresentado pretende ser bonito, e muitas vezes podemos encontrar derrotas, amarguras e desesperos) de um compositor, e também de um regente, a frente de seu tempo.
Para inaugurar este blogue, Mahler é com certeza o melhor assunto. Mas não é o foco. O estou inaugurando para dar sequência ao meu projeto de textos sobre música pura, ou seja, como entender aquela música que a principio não tem suporte literário. Prometo aos meus leitores que volto na próxima publicação com meus textos didáticos, mas hoje, vou me arriscar num caminho espinhoso e perigoso para mim: a crítica musical.
Agora sim posso dizer a vocês do Porque Mahler. Nesta sexta feira dia 23 de abril, tive a oportunidade de assistir a OSESP, dentro de seu projeto de executar até o final de 2011 todas as sinfonias do compositor, tocar a Primeira Sinfonia - Titã - do compositor sob a regência de Roberto Minczuk. É esta experiência que quero compartilhar com vocês agora. Espero que gostem e voltem sempre!
Ronaldo Alves Penteado.
Ronaldo é bacharel em composição musical pela Faculdade de Artes Alcântara Machado (FAAM). Desenvolve trabalhos em Harmonia, Organologia, Arranjo e Teoria Musical no Conservatório Arte Musical. Atualmente dedica muito de seu tempo à pesquisa sobre a vida e obra do compositor austríaco Gustav Mahler.
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