domingo, 2 de maio de 2010

Música Instrumental I

A música instrumental tem uma linguagem própria, e a maneira como esta linguagem se manifesta podemos chamar de “linguagem sonora”. Por conseguir se manter por si só, sem precisar, a princípio, de suportes extra-musicais – digo a principio, pois no século XIX surgem diversos tipos de música puramente instrumentais, como a sinfonia de concerto, o poema sinfônico, a abertura de concerto entre outras, que utilizam como suporte à forma textos literários – este tipo de linguagem passou a ser designada como “música absoluta”.
Entender a linguagem sonora não é tarefa difícil, e qualquer pessoa pode desfrutar de todas as coisas que a música absoluta pode nos oferecer. Dividirei aqui a maneira de apreender a música instrumental em dois níveis: o primeiro é aquele que qualquer pessoa é capaz de entender, inclusive aquelas que não estudam música.
O primeiro passo, nisto que chamo de primeiro nível de entendimento, é perceber que ela pode ser dividas em frases musicais – semelhante às frases da fala. Cada frase termina com algum tipo de pontuação. A sensação que podemos ter nestas pontuações, que chamamos de cadência, podem ser dividas em dois tipos: uma sensação de suspensão, semelhante à uma interrogação da linguagem falada; ou uma sensação de repouso ou conclusão, que pode ser semelhante a uma vírgula, pedindo assim uma continuação, ou semelhante a um ponto final.
Entendido isto, o próximo passo é entender o que chamamos de “forma musical”, ou seja, a maneira como o compositor organiza as idéias musicais. Com um pouco de prática o ouvinte irá perceber que as diversas formas musicais são bastante recorrentes.
Assim que o ouvinte estiver acostumado a perceber a forma e as frases musicais, ele estará preparado para perceber o nível mais profundo onde alguém que não estuda música pode chegar: perceber como o compositor trabalha os motivos musicais. Motivos são como palavras que o compositor usa para construir suas frases musicais.
Bons compositores conseguem dizer muitas coisas com poucas palavras. Beethoven por exemplo, constrói sua Quinta Sinfonia inteira com um motivo de três notas (o marcante motivo de três notas que abre a sinfonia).
Este primeiro nível de entendimento musical é suficiente para qualquer pessoa usufruir tudo o que a música absoluta tem a nos dizer.
O segundo nível de entendimento da linguagem da música absoluta é um entendimento mais profundo, e obrigatório para qualquer pessoa que estuda música: o nível estrutural. Entender a estrutura musical é fundamental para uma correta interpretação, tanto em nível instrumental quanto em regência, para quem pretende seguir a carreira de composição e também para quem pretende seguir carreira pedagógica (licenciatura).
O estudo deste segundo nível envolve as seguintes matérias: teoria musical, percepção, harmonia, análise e contraponto, além de uma destreza com partituras musicais e conhecimento profundo de repertório.
Esta série de artigos vem para debater a linguagem sonora da música absoluta, conciliando questões históricas, estéticas e técnicas para ouvintes e músicos interessados neste tipo de repertório. Abrindo a série, farei uma abordagem histórica do momento em que a música instrumental cresce na mesma importância da música vocal, até sua emancipação como linguagem e a fixação dos primeiros gêneros puramente instrumentais. No próximo artigo, será feito um debate de quando as pessoas e pensadores aceitam a música absoluta como linguagem, apesar desta já estar independente há alguns anos. Boa leitura e volte sempre!

Música instrumental no século XVI (Renascimento)

O período entre os anos de 1450 a 1550 são marcados por um crescente interesse pela música instrumental por parte de compositores sérios, além do nascimento de estilos e formas independentes de composições instrumentais, mesmo sendo esta época marcada também por um grande desenvolvimento da polifonia vocal.
Obviamente, não é no século dezesseis que surge música que utiliza instrumentos, pois durante toda a idade média os instrumentos dobravam as vozes humanas. É bem provável que os tenores dos organa de Leonin (c. 1159-1201) fossem dobrados por um órgão, devido a duração prolongada das notas que o compõe. A Missa de Notre Dame de Machaut (c. 1300-77) também provavelmente dobrava as linhas vocais com instrumentos, e há relatos da impressão que o moteto Nuper Rosarum Flores de Dufay (c.1400-74) causou quanto ao seu brilho e instrumentação inovadores.

Os sentidos de todos começaram a empolgar-se [...] Mas à elevação da sagrada hóstia todo o espaço do templo se encheu de tais coros de harmonia e de um tal concerto de instrumentos vários que dir-se-ia (não sem razão) que as sinfonias e cânticos dos anjos e do divino paraíso haviam sido enviados do céu para nos segredarem aos ouvidos uma inacreditável doçura celestial (Gianozzo Manetti em relação a impressão causada pelo moteto Nuper Rosarum Flores de Dufay. Apud Grout e Palisca, História da Música Ocidental, pág. 176).

Boa parte da música instrumental da idade média, inclusive do alto Renascimento se perdeu, pois não era escrita. Mesmo quando uma música vocal era dobrada por instrumentos, não havia indicações na partitura.
É na primeira metade do século XVI que os instrumentistas deixam de ser vistos com maus olhos pela sociedade e pelos pensadores. Surgem as primeiras publicações que descrevem instrumentos ou dão instruções sobre como tocá-los. Por estarem escritos em língua vernácula, eram dirigidos aos executantes, não apenas utilizados como tratados teóricos.
A música instrumental nesta época ainda estava estreitamente vinculada à música vocal, porém, ela se desenvolve e chega ao mesmo nível de importância da música vocal. (Para se ter uma idéia desta relação da música instrumental com a música vocal, os trombones, que no período eram conhecidos como sacabuxas, tinham a função de dobrar linhas melódicas de música coral até o início do século XIX. Este instrumento só ganha independência com a Quinta Sinfonia de Beethoven, confirmada por Brahms em sua Primeira Sinfonia).
Dobrando as vozes, vem a necessidade de instrumentos que se adaptem à tessitura humana. Surgem desta forma as famílias instrumentais, que além de abarcarem toda a extensão da voz humana desde a soprano até o baixo, garantem uniformidade timbrística. Destas famílias se destacam as das flautas e a das violas (que diferem bastante das cordas atuais).
Aos poucos, ao longo do século XVI, as músicas começam a alternar seções vocais com seções instrumentais (inclusive a música sacra). Paralelamente surgem as primeiras peças independentes para órgão que poderia ser utilizadas ou não em serviços religiosos.

Fixação dos Primeiros Gêneros Instrumentais:

Canzona: nasce na Itália como uma canção para se tocar. Seu desenvolvimento como música instrumental independente teve conseqüências históricas importantes. Quando ela passa a ser escrita para um conjunto de instrumentos dá origem a Sonata da Chiesa (Sonata da Igreja) do século XVII.

Música da Dança: uma parte considerável da música instrumental do século XVI consistia em peças de dança, que deixaram de ser improvisadas e passaram a ser escritas em partituras. Quando estas danças passam a ser organizadas em grupos, temos o nascimento da Suíte Instrumental.
Uma característica importante das peças de dança era que elas tinham uma grande independência em relação à música vocal.

Música de Improviso: algumas músicas instrumentais nasceram da prática da improvisação. Foi por causa da improvisação que os compositores começaram a perceber a verdadeira capacidade dos instrumentos. Nascem os gêneros de caráter de improviso: toccatas, fantasias e prelúdio.

Sonata: este termo nasce para designar peças puramente instrumentais para solistas ou conjuntos, logo a sonata se fixa como gênero instrumental não sacro. Desta maneira nasce a Sonata da Câmara.

Música inglesa para teclado: um grande interesse surge por parte dos compositores ingleses da segunda metade do século XVI pelos instrumentos de tecla, principalmente o virginal. A mais completa compilação destas obras no período é o Fitzwilliam Virginal Book de cerca de 1610 ou 1619, contendo cerca de 300 composições para virginal de finais do século XVI.

Desta maneira a música instrumental ganha tamanha importância que em inícios do século XVII ela já está com seus gêneros consolidados e com total independência em relação à música vocal. Esta independência calha com o início do período Barroco, que na verdade é quase uma continuação do Renascimento. A diferença básica entre os períodos na verdade é o surgimento da Ópera (também resultado de uma série de discussões do humanismo renascentista) e a consolidação do sistema tonal (que de certa maneira já estava sendo desenvolvido pelo Renascimento).

Ronaldo Alves Penteado em 02 de maio de 2010.

Ronaldo é bacharel em composição musical pela Faculdade de Artes Alcântara Machado (FAAM). Desenvolve trabalhos em Harmonia, Organologia, Arranjo e Teoria Musical no Conservatório Arte Musical. Atualmente dedica muito de seu tempo à pesquisa sobre a vida e obra do compositor austríaco Gustav Mahler.

Fontes bibliográficas:

Grout, Donald J., Palisca, Claude V. História da Música Ocidental. Lisboa: Gradiva, 2007.

Dahlhaus, Carl. Estética Musical. Convite à música.